quarta-feira, 11 de março de 2009

O Lendário Ògún de Ronda

Diz a lenda, que Seci (Kaluanda, Kalomi) era madrinha e mestra de Vila-Ma-Nzumbi e que todos os dias ao cair da tarde ela surgia na beira do rio para instruí-lo sobre as coisas da vida, mas com o passar do tempo Vila-Ma-Nzumbi se apaixonou por ela, que por várias vezes o recusou, porém já conhecedor dos feitiços e mandingas e muito sagaz, e aborrecido com as constantes recusas dela, uma tarde em que estavam juntos, Vila-Ma-Nzumbi recorre a Kilundu Kitembu Mbundo, o Espírito Negro do Ar que faz a tarde escurecer, e o rio ficar revolto, acarretando assim grandes perigos para o retorno dela ao fundo do rio, a titulo de protegê-la ele se aproxima dela e a possui provocando com isso mais fúria nas águas do rio. Após a revolta das águas que abriu vários braços do rio, e passado o negrume da tarde, estabiliza-se a calmaria e Seci desperta do torpor na qual mergulhara, mas sente-se presa a terra, o calor lhe abrasava o corpo, ao perceber a parca presença de Kilundu e a satisfação transformada em perversão no rosto de seu protegido, e se sentido mulher e mãe, ela então em seu primeiro momento de ira e revolta ela desabafa proferindo as seguintes palavras:
Xé ixi kumbuka kiki, ngiji, e lanje kiá ndomba, kubanza kuala mueneué.
Tu jamais atravessarás estes rios, e nem tua sombra se refletirá sobre ele.
E continuou:
Bu ama menha a-um-loko kuala éie
Sobre estas águas maldito serás tu.
E desabafou:
Kukuata mutu xé, kuala kioso, kalunga mbe, kiami xitu kuta mbula kia kilulu, ixé, kima dilamba luê, izudidiku kié muene-muene eme.
Condenado serás tu por toda a eternidade, pois meu corpo conceberá a tua alma, e tu serás a praga que perseguirá seu próprio eu.
Segundo a lenda todas as manhas ela emergia do rio para cantar para seu filho Kifumbi Kijetu, O Guerreiro das Rondas, ou seja, Ògún de Ronda, como seria a vida dele sobre a terra. Este inkisse metade homem santo metade demônio. Sua morada é no meio das ruas, não precisando de casa para se abrigar, pois sua morada permanente é no meio das encruzas.
Quanto a Vila-Ma-Nzumbi diz a lenda, que ele foi absorvido pelas sombras negras do céu e viveu eternamente entre elas. Nas crendices dos cultos do Angola e algumas de suas facções não se alimentava qualquer que fosse o Exu em noites claras e não se colocava nem despachos e nem oferendas no meio das ruas, estradas, encruzilhadas ou caminhos, pois os exus não conseguiam receber, pois lá estava o Guerreiro das Rondas pronto para castigá-los, portanto com suas lanças, obrigando-os assim a viverem pelos cantos, sem terem condições de se aproximarem. Logo, todas as oferendas destinadas a qualquer Exu postas nestes lugares eram, são e sempre serão Ògún que as recebe.
Ògún de Ronda um legado da seita dos Kabula (ou maçonaria africana) para as facções do Angola, de certa forma foi extinto para dar lugar a Ògún Já e Ògún Şoroke, dos cultos ketu e jeje.
A seita Kabula e sua facção o Giro, começavam os seus rituais cantando para Ògún de Ronda assim:
Seu Ògún não é mê, é de iaiá
Já mandê na Bahia assentá
Já mande logodô levantá
Seu Ògún não é meu, é de iaiá}bis

Ògún de Ronda é de amoraciii
E katula vira inganga êê
Ele é xetruá ê
Obs. Tempos depois passaram a usar este mukumbi (cântico) para Ògún –de-Lê.

Ògún de Ronda já mandê rondá mariô
Ele vai pá ronda já mandê rondá mariô

Ògún, Ògún tatará
Tenha dó de mim
Tenha dó de mim tatará
Tenha dó de mim
Ou
Ògún, Ògún tatará
Kuina henda e eme
Kuina henda e eme tatará
Kuina henda e eme

Ògún de Ronda o eterno guerreiro, o encarniçado perseguidor dos exus, o eterno protetor dos mendigos e dos bêbados, alcoólatras, o juiz justo dos zombadores e profanadores. É um inkisse que requer muito cuidado, tanto na forma de cultuá-lo como em sua feitura, pois para tal tem que ser Exu escravizado por Ògún, tendo para tanto que assentar Òşun.
Não pode ser feito dentro de casa e nem permanecer o seu assentamento dentro de casa. Para a sua feitura é preciso muito conhecimento e prática, tem que ser tudo muito bem dividido, sem que a balança penda mais para um lado. Também tudo duplo do kele aos bichos, na maioria dos casos não é possível se fazer este inkisse sem se sacrificar para tal ato um cachorro, para se completar suas obrigações.
Suas ferramentas são: uma espada, uma lança e um obé-fará. Para suas vestes, do lado direito é uma roupa simples, do lado esquerdo em alguns lugares é cheia de nozes.
Suas comidas tanto podem ser as comidas comuns de Ògún, como os despachos feitos para os escravos e postas no meio da rua.
À Ògún de Ronda todos os exus prestam satisfação dos atos praticados durante o dia, e ele por sua vez, presta satisfação a quem de direito. Os filhos desse inkisse são destemidos e temidos, quando cuidam dele conseguem tudo que querem na vida, todavia quando não cuidam geralmente se acabam no meio das ruas. A maior parte dos filhos dele em tese carregam a maldição das águas, sendo que uns pagam quando jovens e outros quando velhos, mas no fundo são pessoas boas para se lidar.

8 comentários:

  1. muito bom esse bloque!!!as pessoas acha que ogum de ronda e de unbamda!!!!mas naop e verdade!!!e soler isso que ver que realmente ogum de ronda e um nkisse!!!de angola!!!!pareabéns!!!manda o numero de contado ai meu pai!!!!

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  2. Parabéns, meu velho! Tens meu apreço!E agradeço o lumiar do meu entendimento !

    Meus olhos, sim, meus olhos, se encheram d'água ao ler estas linhas sobre Ogum de Ronda!

    Axé!

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    1. eu tenho muiot orgulho de tem ogum de ronda como meu pai

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  3. Onde poderia achar mais informações sobre Ogum de Ronda

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  4. Já me falaram que passarei pela provação das águas e sou filha de Ogum de Ronda. Poderia me explicar melhor?
    Obrigada!

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  5. Gostaria de saber mais sobre essa provação das aguas. Acredito realmente estar passado por alguma provação ou castigo desde o meu nascimento. Tem alguma forma de superar esses momentos dificeis? ou ameniza-los?

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  6. Sou de Ogum de Ronda e de Xango Agodô, foi os dois primeiros orixás vistos pela Ekedi, por meio de vidência, ao eu entrar no terreiro, e pela respectiva mae de santo, ao jogar búzios.

    Dizem que são energias que são contrarias que não podem. Mas os dois não passam no mutuê. Na coroa é Xangô; de frente é Ogum.

    A esse dois Senhores devo minha vida!

    No entanto, assim como Ogum de Ronda, sobre Xangô Agodô é também dito ser da umbanda.

    O dogmatismo ortodoxo contra a realidade e vivência do candomblé.

    Excelente texto.

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  7. Quis dizer que os dois não passam "juntos" no mutue, mas entre eles, em relação a mim, já houve "guerra de santo"...

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